Moda e cultura brasileira Solange R. Mezabarba Quando fui convidada pela primeira vez a lecionar cultura brasileira na Faculdade de Moda do Senai Cetiqt, percebi que tinha um enorme desafio pela frente. Como trazer à baila durante o curso discussões tão profícuas quanto diversas, num período tão curto? Inevitável incluir na bibliografia os hoje célebres textos de Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala, publicado pela primeira vez em 1933 (2003), Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda, publicado pela primeira vez em 1936 (1995) e Carnavais, malandros e heróis, de Roberto da Matta (1997), publicado pela primeira vez em 1979 – um inspirando o outro nessa mesma ordem. Jessé de Souza (2017), mais recente, completaria o percurso, criticando pontualmente os demais. Deveria ter dado mais atenção a Darcy Ribeiro (1995) que, dono de uma erudição ímpar em nossas terras, já advertia que havia precisado de 30 anos para desenvolver o seu hoje clássico O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. Para escrevê-lo, conta ele em seu prefácio, fugiu do hospital e se exilou em Maricá, temendo partir sem concluir sua grande obra. A cultura brasileira, portanto, pode ter vários sentidos interpretativos. Podemos ler a formação étnica e o patriarcado nas linhas de Freyre, o patrimonialismo e a cordialidade escorregadia em Holanda, a vida cotidiana pelos olhos de DaMatta, começando pelo carnaval como inversão de uma lógica simbólica, chegando ao jogo do bicho e, por fim, nos envolvermos com a visão crítica de Souza ao atingir em cheio os conflitos de classe, a relação com a escravidão e o pacto elitista com sua violência simbólica. Fora esses nomes, brasilianistas como James Green, Armelle Enders e Tim Powers nos oferecem uma visão estrangeira para o que vivenciamos localmente. Meu desafio só se tornou factível, e até certo ponto, lúdico, quando dei à empreitada o rumo da cultura material. A riqueza da cultura material desenvolvida no Brasil, e em especial, no que envolve o vestir, deu ao curso a dinâmica que eu precisava. Comecei com Maria Beatriz Nizza (1993) e a abordagem que a autora faz da roupa brasileira em seus inícios, trabalhando com seu texto O trajo, publicado no volume Vida Privada e Cotidiano no Brasil – Na época de D. Maria I e D. João VI. Nele, a autora descreve como africanos e indígenas eram levados a se vestirem como vicários dos senhores europeus. Moral cristã e distinção conduzia os trajes que passeavam nas vilas de então. Antes, ainda, busquei as narrativas do que seria o Brasil antes do Brasil, paráfrase do título do texto do jornalista Rafael Freitas da Silva, O Rio antes do Rio (2015). Silva me deu a chave para analisar, desde o texto da carta de Pero Vaz de Caminha até as pinturas, reflexo do que viam os olhos dos viajantes europeus entre encantados e assustados, retratando aqueles que formavam o gentio dessas terras. O Brasil, afinal, foi nomeado pela brasa da cor da madeira que, matéria-prima para o vermelho, tornava o luxo da roupa portuguesa alcançável via colônia. Hans Staden, capturado e sobrevivente dos Tupinambás, desenhou em seu cativeiro os corpos nus, realizando um dos primeiros registros nos nossos habitantes originais. Da França Antárctica, Jéan de Léry informava os franceses com seus escritos de Histoire d’un voyage a la terre du Brésil. Ekhout, Rugendas e Debret me inspiraram na preparação de aulas que analisavam a cultura material brasileira a partir da vida cotidiana. O primeiro, companheiro de Maurício de Nassau na exploração de terras nordestinas, retratou Pernambuco e os indígenas que lá habitavam no século XVII; Debret e Rugendas circularam por essas terras no século XIX, nos presenteando com registros da vida cotidiana de escravos, senhores e indígenas mesclados a uma paisagem descrita nas Brasilianas, muitas vezes, como exótica. Finalizei o percurso da ementa da disciplina contemplando os regionalismos e suas riquezas. Analisamos das bombachas gaúchas, ao pano de costas das pretas baianas. Da roupa do carimbó paraense à indumentária do “malandro carioca”. Neste novo número da REDIGE, posso dizer que incluí mais duas referências substanciais ao que poderá ser um curso da cultura material brasileira. Começamos com o primoroso texto da designer Maristela Pessoa Ramos, intitulado O bordado como saber-fazer disciplinador na formação feminina. A autora se ocupa de analisar os bordados como objeto da formação feminina no Brasil. Sennett (2009) em seu trabalho O artífice já havia mostrado como na Idade Média, as mulheres deveriam se ocupar de costuras e linhas para não caírem na ociosidade e, consequentemente, na tentação. O pensamento católico formado na Europa medieval, e, em especial, nas culturas que se tornaram as matrizes da nossa própria formação cultural, se estabeleceu no Brasil, trazendo o ensino do bordado para escolas confessionais e, notadamente, para a formação feminina. Ramos desenvolve este texto com reflexões inspiradas em De Certeau (2007), para quem as tarefas cotidianas como cozinhar, do mesmo modo como bordar, são “gestos técnicos”; Marcel Mauss, que atenta para as técnicas corporais e a habilidade do corpo como caminho para o saber fazer, e Tim Ingold, para quem o saber-fazer se expande para além do conhecimento técnico da prática artesanal. A casa e a roupa brasileira, inspiradas em técnicas europeias, se beneficiam do bordado, singularizando objetos de vestir o corpo e os cômodos. O segundo texto deste número seguiria de par com a análise da roupa do carimbó da ementa do curso de cultura brasileira da Faculdade de Moda. Desta vez, convidamos Eduardo Jorge Maciel e Ana Paula Miranda para discorrer sobre a indumentária do Maracatu. Os autores nos brindaram com o texto Uma Estética para um Ritmo – A Construção da Identidade de Moda em Movimentos Culturais. O Maracatu é uma performance que surgiu em Pernambuco no século XVIII. Na década de 1990, o movimento contracultural denominado Mangue Beat trouxe o Maracatu para a cena pop nacional. Os autores analisam a pesquisa etnográfica realizada ao longo de três anos entre participantes dos folguedos. A experiência trouxe à tona significados e representações simbólicas envolvidas em cada um dos personagens da performance. A partir de minuciosa análise dos valores que integram esse universo, os autores propõem que elementos da identidade nacional relacionados com a tradição podem se tornar moda. Moda e tradição, portanto, transitam numa via de mão dupla. Sendo assim, a cultura material produzida por brasileiros e brasileiras segue despertando inspirações para a moda nacional. Neste número iniciamos uma seção em moda que será mais voltada para gestão. O primeiro trabalho que vamos divulgar será o texto assinado por Vanessa de Souza Ribeiro com a co-autoria da professora Cláudia Mendes. Nele as autoras empreendem uma análise sobre economia circular, tendo como objeto, 5 marcas de moda e a aplicação de princípios de circularidade em seus respectivos modelos de negócio. Como conclusão, as autoras sinalizam que as empresas brasileiras ainda possuem um longo caminho a percorrer para amadurecer essas práticas em seus negócios. Boa leitura! |