v. 8, n. 3 (2021)

v. 8, n. 3 (2021)

Revista REDIGE

Editorial de Design de Moda

Um mundo a ser ressignificado

Solange Riva Mezabarba

A editoria de Design de Moda da Redige abre o ano de 2021 com um tema que vem sendo discutido amplamente nas universidades, no mercado de trabalho e até nas conversas informais: as alternativas para um mundo ambientalmente sustentável. Até a década de 1970 o senso comum apontava para um planeta Terra que proveria de forma inesgotável os recursos para o nosso conforto e sobrevivência. Naquele momento, porém, estudos científicos começavam a dar conta dos problemas que se avizinhavam, causados, em especial, pela poluição atmosférica, e materializados em episódios cada vez mais frequentes de secas afetando lagos e rios, inversão térmica, entre outros. Foi por isso que as Nações Unidas deram início a uma série de conferências com o objetivo de discutir as questões ambientais. A primeira delas ocorreu em Estocolmo (Suécia) em 1972 e produziu a Declaração sobre o Ambiente Humano, conhecida também como Declaração de Estocolmo. O documento marcou o início de um debate que envolve grande complexidade, ainda muito vivo, e, em princípio, sem uma resposta razoável para combinarmos o estilo de vida que alcançamos como sociedade do consumo e a preservação ambiental.[1] O impacto das mãos humanas levaram o químico Paul Crutzen (Prêmio Nobel 1995) a propor que estaríamos em uma nova era geológica, o antropoceno. Pela primeira vez, as chamadas “marcas nas rochas” teriam sido gravadas pela ação humana. As cidades, a modificação da natureza, a indústria, os automóveis e as queimadas teriam modificado a composição do carbono, o solo, a água, enfim, o planeta.[2]

A indústria têxtil, ponta de lança da Revolução Industrial, se configura como um ator de grande importância nesse debate, uma vez que produz resíduos sólidos e efluentes em grande escala, contribuindo para a degradação ambiental. Isso ocorre, não somente pelas sobras de tecidos, como também pelo descarte de produtos que não foram vendidos. Em 2018, a BBC publicou matéria sobre a Burberry, considerada uma marca de prestígio, que escandalizou aqueles que se preocupam com o destino das matérias descartadas: “Marca de luxo Burberry queima roupas, perfumes e acessórios no valor de R$ 141 milhões”[3]. De acordo com a reportagem, a empresa agiu assim para preservar o valor simbólico da sua marca, evitando que sobras fossem negociadas por preços abaixo das suas vendas em suas lojas. No Brasil, Zonatti (2016), em sua tese afirmou que apenas algo entre 50% e 75% das peças de uma coleção de roupas são vendidas. As sobras vão para as liquidações, são doadas, e, ao fim, o que não foi vendido nem doado termina num aterro sanitário, moído ou incinerado. A lei brasileira no. 12.305 de 02 de agosto de 2010,[4]conhecida como Lei dos Resíduos Sólidos, procura regulamentar o gerenciamento desses resíduos, incentivando, entre outras práticas, a reciclagem. É observado o ciclo de vida dos produtos, métodos e processos de produção, enfatizando a cooperação técnica entre as esferas pública e privada, na busca pela diminuição dos rejeitos. Nesse sentido, profissionais da área de moda, vêm mostrando seu empenho na busca por soluções que se alinhem com a proposição do aumento do ciclo de vida dos produtos, bem como, com a ressignificação e reciclagem de roupas e resíduos sólidos. Uma dessas propostas ficou


[1] Para saber mais, ver: https://www.senado.gov.br/noticias/Jornal/emdiscussao/rio20/a-rio20/conferencia-das-nacoes-unidas-para-o-meio-ambiente-humano-estocolmo-rio-92-agenda-ambiental-paises-elaboracao-documentos-comissao-mundial-sobre-meio-ambiente-e-desenvolvimento.aspx

[2] Para saber mais, ver: https://cee.fiocruz.br/?q=node/1106 (acesso em 04/03/2021).

[3] Para saber mais, ver: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-44905496 (acesso em 04/03/2021).

[4] Para saber mais, ver: http://www2.mma.gov.br/port/conama/legiabre.cfm?codlegi=636

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